[Festivais e Mostras] Morte e Vida Madalena

Direção: Guto Parente

Roteiro: Guto Parente

O desafio em se fazer cinema independente é inerente a prática de qualquer cineasta que não nasceu em berço de ouro, especialmente aqueles pertencentes aos países do trópico sul. O filme sempre é feito “na guerrilha”, custando a hipoteca de um apartamento, de uma casa, um carro e até a saúde física dos envolvidos na produção. E quando a produtora executiva e dona do projeto está, além de parindo o filme, parindo um filho, no sentido figurativo e real?

A hipérbole em questão, de tessitura tragicômica, é a figura de linguagem que define Morte e Vida Madalena, o novo filme do cineasta cearense Guto Parente, que, tendo como inspiração a gravidez da produtora e parceira Ticiana Augusto Lima, narra uma história com muito mais humor do que melancolia, aquela que impera por exemplo, em seu filme anterior, Estranho Caminho. Tendo o superlativo Carlos Francisco reprisando o papel de pai, esse novo filme começa com o velório paterno e o enfoque em Madalena ou Mada (Noá Bobona), uma jovem mulher que está grávida e precisa administrar vários 'forninhos' enquanto lida com os problemas de ordem material que a cercam.

Um assusto que Parente repete aqui em Morte e Vida Madalena e que parece ser repetido ao longo de outros filmes (o já citado Estranho Caminho, O Estranho Caso de Ezequiel, A Misteriosa Morte de Perola e Doce Amianto) que é o luto, seja pela perda de um pai, uma mãe ou pelo fim de um relacionamento conjugal, aqui ganha tons de comicidade e ironia, como quando, ainda na cena inicial, uma fumaça de gelo seco encobre o caixão e parte do rosto da protagonista. E ao longo de menos de uma hora e meia de filme-dentro-do-filme, a equipe conduz o público por um passeio pelos bastidores de um filme de ficção científica "B", que seria o roteiro do pai de Madalena, dirigido pelo ex/atual marido dela, Davi (Marcus Curvelo), aquele típico cineasta-problema, sem talento e sem noção; contando com outros atores como Oswaldo (Tavinho Teixeira, um bom candidato à ator coadjuvante nessa edição do Festival de Brasília), Rachelle (Souma) e a assistente de direção Natasha (Nataly Rocha, de Motel Destino).

Trazendo, nas palavras do cineasta, um humor não tão debochado quanto o cearense costuma ser, Morte e Vida Madalena é mais contido no tom, em especial na ótima composição da Madá por Noá, que alterna momentos de pura introspecção - ainda que alguns sejam hilários, como quando ela pega um barco para jogar as cinzas do pai no mar - e momentos de escape que resultam em gargalhadas, como a troca no diálogo (que é uma pérola do deboche e com direito a referência cinéfila), que é uma disputa pela direção no set com Oswaldo, envolvendo Kubrick e piada anal.

“Parto de cenas e imagens e não só do tema, pois não havia percebido que os meus filmes lidam com lutos” - Guto Parente

A singeleza e a ligeireza dessa comédia autoral, que estreou no relevante FID Marselha e que não se faz de rogada ao lidar com temas que perpassam a rotina daqueles que atuam no cinema brasileiro independente, como a greve encabeçada pelo técnico de som Nonato (David Santos), que tira (ainda mais) o sono e a tranquilidade de Madá, que ainda é invadida por lembranças da infância com o pai e a ausência da mãe, numa inflexão de espelhamento por meio de elipses que se assemelham ao que Truffaut faz em Noite Americana, quando seu personagem de cineasta, perdido e lidando com um set paralisado, vê o próprio reflexo quando criança numa poça. Madá, em oposição, olha por cima de um muro e se vê, criança, na piscina. A camera dá um zoom e a criança, feliz, sorri para a adulta, que sorri em retribuição. E depois dali, é quando a produtora resolve assumir a direção do seu filme.

Guto, na coletiva de imprensa em Brasília, comentou que “o zoom é um mergulho ótico, que eu amo e ajuda a construir uma visão única do filme”. Assim como Madá, que, graças à composição muito dosada e elegante de Noá Bonoba, é uma anti heroina inesquecível, cheia de falhas e de mau humor mas dona de uma força carismática, o filme Morte e Vida Madalena provocou dos risos às lágrimas, suplantando o velho problema dos filmes sobre filmes que deixam ser sobre pessoas por uma inclinação a serem exercícios de cinefilia masturbatória vazios de sentido narrativo.

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