O sol do Rio de Janeiro testemunhou mais uma edição histórica do Festival do Rio, que ocupou a cidade com uma programação plural e instigante entre os dias 3 e 13 de outubro de 2024. Como espectadora e crítica, vivi dias intensos de cinema, descobertas e reencontros. Neste texto, compartilho um olhar aprofundado sobre os filmes, as tendências e os debates que marcaram a 26ª edição do festival, que se firmou como um dos mais importantes termômetros do cinema mundial.
O Cinema Brasileiro como Força Motriz
A produção nacional foi, sem dúvida, o grande destaque. "O Último Azul", de Renée Messora, me pegou de jeito. A forma como a câmera abraça a paisagem amazônica e a humanidade de Dona Alda (interpretada por uma atriz não profissional arrebatadora) constrói um dos retratos mais bonitos sobre envelhecimento, autonomia e o direito ao sonho que o cinema brasileiro já produziu. É um filme que exige ser visto na tela grande para que se apreenda cada textura sonora e visual.
Na mesma toada de experimentação e verdade, "Manas", de Flora Dias, é um soco no estômago. O filme acompanha a adolescente Mari, em uma comunidade amazônica, e expõe as camadas de violência que cercam seu despertar para a vida adulta. A direção de Dias constrói uma atmosfera sufocante e poética ao mesmo tempo, num equilíbrio difícil que o cinema brasileiro contemporâneo tem alcançado com maestria. A premiação do festival, que consagrou ambos os títulos, acertou em cheio ao valorizar este novo ciclo do nosso cinema.
Internacional: Narrativas que Atravessam Fronteiras
Na competição internacional, "All We Imagine as Light", de Payal Kapadia, foi um dos meus grandes achados. A cineasta indiana cria uma obra sobre mulheres que buscam luz em meio ao caos de Mumbai. É um filme sobre sororidade e recomeços, onde a fotografia de Ranabir Das faz da chuva e da noite elementos dramáticos tão importantes quanto o texto. É cinema poético no seu estado mais puro.
Em chave completamente oposta, "The Brutalist", de Brady Corbet, é uma obra monumental. A história do arquiteto judeu László Tóth (Adrien Brody) que foge da guerra para reconstruir sua vida nos EUA é narrada em mais de três horas que não parecem longas demais. A direção de arte e a trilha sonora são de uma coesão impressionante, criando uma experiência imersiva sobre o preço da genialidade e o sonho americano esfacelado. Já "Anora", de Sean Baker, trouxe a leveza e o caos necessário. Vencedor da Palma de Ouro, o filme é uma comédia dramática eletrizante que transforma a história de uma stripper que se casa com um playboy russo em uma crítica afiada e humanista sobre classe e desejo. A plateia no Odeon vibrou a cada cena.
Novos Formatos e o Documentário como Memória
Jia Zhangke, em "Caught by the Tides", oferece um ensaio impressionante sobre o tempo e a memória. Utilizando 20 anos de material filmado, ele constrói uma história de amor que é também a história da transformação da China. É um experimento cinematográfico ousado e profundamente emocionante, um presente para cinéfilos. A sessão no Estação Net foi seguida por um debate intenso sobre o papel do arquivo na ficção.
Balanço e Reflexão
O Festival do Rio 2024 foi uma afirmação da potência do cinema em sala escura. Em tempos de fragmentação da atenção, o festival ofereceu o luxo do tempo dedicado à experiência cinematográfica. A curadoria, ao mesclar o mainstream autoral com o cinema mais experimental, criou um ambiente fértil para o debate. Foi uma edição para lembrar, não apenas pelos filmes exibidos, mas pela energia de um público que ainda acredita no cinema como espaço de encontro e transformação. Que venham os próximos festivais!
Perguntas Frequentes sobre o Festival do Rio 2024
Quais foram os grandes destaques do Festival do Rio 2024?
Os grandes destaques refletem a força do cinema brasileiro contemporâneo, com filmes como "O Último Azul" (Renée Messora) e "Manas" (Flora Dias), que conquistaram o público e a crítica com suas narrativas inovadoras e sensíveis. Na seção internacional, "All We Imagine as Light", "The Brutalist" e "Anora" foram alguns dos títulos mais comentados.
Onde posso ler mais críticas sobre os filmes exibidos?
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